segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O exercício do olhar

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por Walkyria Novais*

“Para los Ojos” reúne trabalhos de quatro artistas brasileiras que utilizam a pintura, não só como linguagem, mas também como desculpa para interagir e olhar o mundo. Esta exposição resgata o exercício do olhar. A pintura é isso: um flanar pelo mundo, pois sempre somos convidados pelo olhar para sairmos de nós mesmos e passear pelas coisas, a apalpar as coisas, repousar sobre elas, viajar no meio delas.
O que une essas mulheres? E o mais importante o que as diferencia?
Cada uma delas é um universo particular, com sua temática, suas cores, sua pincelada, seu processo criativo, seus questionamentos estéticos e pessoais. Mas isso só reforça o que as une: o exercício indiscutível da liberdade plena, a rejeição a qualquer rótulo, a qualquer regra que limite a liberdade de criar. Por esse motivo essas artistas estão juntas.



A sedução da cor, a liberdade de expressão e o gestual expansivo, são os fios condutores para a apreciação dos trabalhos de Dani Henning. Conhecida como a artista do movimento, ela transforma seus objetos em alfabeto visual, onde a espontaneidade do grafismo e a jovialidade das cores imprimem uma dinâmica própria. Suas bicicletas, são antes de mais nada, a expressão maior dessa liberdade de criar, refletindo o seu não conformismo com a estagnação. Suas obras mostram um dinamismo alegre e instigante.
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Claudia de Lara, ao contrário de Dani Henning que explode numa profusão de cores puras e gestos para movimentar o objeto estático, utiliza o recorte do cotidiano para aprisionar o movimento. Nesse ato de fragmentar e congelar a realidade, a artista discute não só a arte, mas também se posiciona para olhar a contemporaneidade. Esses questionamentos encontram ressonância na sociedade atual, que é em essência fragmentária. Nesse“Slow-motion” onde a perspectiva é distorcida, Claudia, ao reter o tempo captura-o para pesquisar a cor e dessa forma devolve o movimento ao instante congelado.





Em contraponto com D. Henning e com Claudia, Sandra Bonet exclui a cor, se livra do fundo, dos excessos e se foca na figura. Com um desenho apurado, desconstrói alguns elementos da composição e direciona sua força criativa ao objeto da sua arte, elegendo como tema maior a figura humana. Os brancos, em sua obra, não são meros espaços vazios, como poderiam supor olhos menos atentos, pelo contrário, o branco mostra a ênfase que vai se construindo ao redor do ser humano. Essa ênfase é a nevoa do não-fundo que em alguns momentos abraça e engole a figura, disputando seu território.



Enquanto D. Henning dá movimento aos seus objetos-alfabeto e Claudia de Lara busca os seus objetos de desejo-artístico num universo lúdico fora de seus domínios; Sandra Hiromoto promove o diálogo dos objetos domésticos, melhor, dos objetos cotidianos.

Mas quem dialoga com eles? É a artista que conversa com sua pintura? Ou somos nós, os expectadores, que somos convidados a dialogar com os objetos e por extensão com a própria artista? Que segredos esses objetos querem compartilhar? Esses questionamentos perturbadores perpassam toda a obra de Sandra Hiromoto, seja pela escolha da sua temática, seja pela forma de abordagem estética. O que chama a atenção é o paradoxo entre a manipulação da fotográfica digital com as suas pinceladas vigorosas, expressivas, intuitivas. Essa inquietação é também no seu processo criativo, ela se utiliza da arte urbana e promove novos questionamentos ao mesclar a pintura de cavalete com a stencil art, apropriada da arte urbana. Criando com isso uma pintura hibrida onde a cor vibrante é uma cor provocativa.

Marilena Chauí diz que a pintura é a ruminação do olhar, é ela que eleva à ultima potência o delírio da visão. E são os olhos que fazem esse percurso, que desvendam o mundo atando as pontas soltas. Assim o traçado da nossa visão na exposição “Para los ojos” é feito pro essas quatro artistas que elegeram a visão como o sentido para esse encantamento.

*Walkyria Novais é formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Paraná, em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul e pós-graduada em Poéticas Contemporânea no Ensino da Arte, pela Universidade Tuiuti do Paraná.

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